26/05/2009

Crônica


Hoje, para variar um pouco, não falarei de receitas... Gustavo e Táscia, para quem não conhece, são dois grandes amigos nossos e criaram há algum tempo um blog, o Hupokhondría para darem vazão a seu ímpeto criativo literário, o que resultou em extasiantes contos de algumas linhas. Alguns autores acreditam ser este um gênero literário menor, porém outros como o Poe, meu favorito, consagraram-se nesta modalidade de escrita. Drummond, Verissimo, Lovecraft, Oscar Wilde e Machado de Assis reforçam a idéia.

Este texto foi escrito pelo Gustavo em homenagem à nossa casa e seus segredos. Leiam e tirem suas próprias conclusões, mas saibam que uma visita ao blog deles vale o clique, afinal alguma coisa você também tem.

Arroz com feijão

para Myrna

- Vamos colocar nossas receitas num blog?

Assim começou o pesadelo, na hora do jantar. No dia seguinte, um sábado, cozinharam pasta acompanhada de cebola recheada assada. Fizeram todo o aparato: preparam as melhores louças, armaram o cenário, planejaram a luz e tiraram a foto que acompanharia a receita e o texto de apresentação do blog. Comeram frio, fato irrelevante perto do feito que propagaram aos amigos pelos e-mails da semana.

O feedback levou à empolgação do final de semana seguinte: entrada, prato principal e sobremesa, barba-cabelo-bigode da boa mesa. Ou assim pensavam antes de alguém perguntar o que beber para acompanhar os pratos. Quarta-feira já havia um coquetel no blog.

Os acessos ao blog faziam o contador girar freneticamente e os comentários empolgavam e levavam a carnes, doces, legumes, drinks, peixes e acompanhamentos diários. Bastava que um chegasse em casa e descabia-se para a cozinha com a sugestão de um colega sobre um pé-de-moleque ou de um amigo a respeito de uma pasta para torradinhas. Se cozinha ganhasse hora extra…

Semanas e meses em incansável labuta gastronômica. Liam livros, procuravam em receitas e bastava um dia sem uma novidade no blog e lá vinham as reclamações, nem sempre de amigos: a notícia viajou. Os constantes textos explicativos das receitas demandavam pesquisas literárias e históricas, as ricas citações não poderiam perder o nível, e assim prosseguiu o trabalho até o dia em que ele chegou em casa atrasado, preocupado por ser seu dia de fazer a sobremesa, e ela chorava copiosamente sobre uma panela esfumaçada.

- O que houve meu bem, queimou alguma coisa?

- O arroz! – desesperou-se – Quero arroz com feijão!!!

Gustavo Burla

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